quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Senhor, tornai-nos servos

Era um povo escravo. Humilhado e ofendido na sua própria terra. Os seus opressores usavam-nos como objectos. Menos que objectos, por vezes. Detinham poder absoluto sobre a sua vida e morte.

Juntem, porém, os maiores inimigos, os maiores antagonistas dentro de uma jaula, e acabarão por descobrir afinidades. Sempre dispostos a ver no outro a sua própria sombra, acabarão por se amar. Um dia libertaram-nos.

Como graça pela sua libertação, os seus antigos opressores, agora amigos, ofereceram-lhes um pequeno pecúlio para cultivo. Cultivaram-no. Passaram a usufruir de um património próprio, embora a terra e os seus caprichos fizessem pagar os seus magros rendimentos com amargo suor.

Um dia, um visionário cientista converteu a velha charrua com que cultivavam, operante a força humana, numa potente e eficaz charrua propulsionada a força bovina. Rapidamente, a novíssima charrua deu os seus frutos. Num piscar de olhos, passaram a cobrir todas as suas necessidades e a colher excedentes.

Os mais argutos compreenderam que a charrua poderia também ser útil na criação de um novo meio de transporte, suplantando assim o esforço dos velhos cavalos.

Novíssimas charruas-móvel passaram a transportar homens e mercadorias, dia e noite. O povo enriquecia.

Uma mente ainda mais sagaz resolveu tomar partido do know-how de construção de charruas, sedimentado ao longo dos anos em práticas reiteradas e aperfeiçoadas pela inteligentia local. Tudo isto, conjugado com a mobilidade mercantil, trouxe nova e próspera fortuna ao povo. Já não era necessário trabalhar.

Os seus velhos costumes arcaicos, a dureza das relações sociais e os seus estritos códigos de honra tornaram-se obsoletos, relaxaram-se. O derrame de sangue passou a ser um crime tão hediondo como outro qualquer.

O povo, agora rico, ocioso, saudável e com pavor à violência, reparou, contudo, que apesar de tudo não era feliz. Alguns maldiziam a charrua, e toda a corrupção que havia trazido consigo. Outros suicidavam-se sob o espelhar baço e indiferente dos céus. Outros tornaram-se débeis, derreteram, de tão sobre-humanos que eram. A esmagadora maioria, porém, limitava-se a desligar todos os sensores animalescos e a fruir pacificamente toas as comodidades que a vida pós-moderna lhe proporcionava. Muitos disseram que era o fim-da-história e acenaram aos seus velhos inimigos.

Não se sabe muito bem como acabou esse povo, nem mesmo a verdadeira causa da apatia que se apoderou de todos de forma endémica, mas suspeita-se que diriam: “apenas queremos ser oprimidos”.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Nietzshe escreveu sobre uns homenzinhos frágeis escondidos em sistemas implacáveis.
Um Wittgenstein persistentemente kantiano erigiu um templo em homenagem ao Deus mecânico na voz de um sacerdote omnipotente, ditando “estados de coisas” irrefutáveis.
Russel descobriu algumas fissuras nas paredes do templo, limitando-se a desconfiar de fortalezas inexpugnáveis. Intuiu, embora muito provavelmente nunca o tivesse dito, a contingência desses templos construídos contra o Deus pagão, quando eles próprios são templos… de um Deus.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Uma sociedade assente em patologias seculares. Determinismo civilizacional. Estamos a falar da Rússia.
Aqui, a cisão entre o Estado e a sociedade é brutal. O Estado é algo de estranho, externo à sociedade. A complexidade acentua-se quando constatamos que é este o tipo de Estado que os russos reconhecem como o melhor e mais consentâneo com a especificidade do seu país. Um estado de mão pesada e terrível, numa linha de governação que pouco muda, desde Ivan a Putin.
Curiosamente, o auto-isolamento, esclerosamento e e autocracia são também o pior inimigo do povo russo. A sociedade foi sempre composta de uma massa imensa de camponeses (moujiques, depois da abolição da servidão por Alexandre II), uma minoria operária (3%, à data da Revolução de 1917) e nobreza. A extrema intolerância e redução do espaço público de discussão a zero, faz com que os grupos revolucionários se tornem ainda mais radicais e perpetua os vícios do Estado: uma máquina burocrática gigantesca, ineficaz e monocéfala. A autonomia do poder local é praticamente nula.
Desta evolução parece resultar que a Rússia, país eternamente dilacerado entre Oriente e Ocidente, absorve o pior destes dois mundos: a desumanização e crueldade orientais; de ocidente, as formas políticas despojadas do seu conteúdo e despojadas de um contexto propício (quiçá, a própria interpretação bolchevique do marxismo).
É o persistir da recusa de compromisso, a vontade de servidão, apatia, gosto pelo sofrimento.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Enfrentando uma sociedade cada vez mais opressora, as forças sociais que nos impelem inexoravelmente para um papel: uma performance, reduzem cada vez mais o significado (o que quer que isso seja) da vida. O papel do trabalho na vida de uma pessoa foi progressivamente desvirtuado após a Revolução Industrial. Porém, hoje, não se trata apenas da escravização do homem pela máquina (ideia sobejamente conhecida e explorada até à náusea pelos teóricos), mas da exploração do homem pelo número. O número, transposição abstracta da individualidade e unidade, variado em constantes binárias, precipita a existência para uma ambivalente relação entre realidade e irrealidade. Assim, será cada vez mais ténue a fronteira entre trabalho e lazer; diversão e prazer – o infinito subjectivo projectar-se-á com igual leveza no estabelecimento de laços afectivos instantâneos ou numa prestação laboral (a venda de um produto, por exemplo). O problema reside precisamente na incomensurabilidade existente entre o valor da prestação (ou performance), enquanto esforço de subectivação, e o seu resultado. Tal incomensurabilidade leva a exigências pessoais cada vez mais rigorosas - até ao delírio, assim como, no plano político e social, a um retrocesso.
A escrita é a morte da palavra, mas é, também, o começo de uma nova vida. Escrever é um exercício doloroso. É uma descida aos infernos; uma ida sem retorno ao infinito pessoal.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

“Pretende-se, em terceiro lugar, que compensando de algum modo a censura de superstição e de abandono que se pode fazer às épocas de corrupção, os costumes se fazem mais suaves no decurso destes períodos, que a crueza aí diminui notavelmente em comparação com as épocas precedentes, mais crentes, mais fortes. Não poderia já subscrever este elogio, tal como não subscrevei a acusação precedente: tudo aquilo que concedo, é que a crueldade se afirma, que as suas antigas formas repugnam ao gosto novo; mas a arte de ferir, de torturar com a palavra ou o olhar, alcançam em contrapartida, em tempo de corrupção, o seu supremo aperfeiçoamento; é só então que nascem a malignidade e o prazer de ser maldoso. As pessoas das épocas corrompidas são espirituais, caluniadoras; sabem que se pode matar dispensando a utilização do punhal e das suspresa; sabem também que se acredita em tudo o que é bem dito”.

F. Nietzsche, in A Gaia Ciência

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Chagamos a uma altura na nossa Europa, em que todas as formas de civilização, convenção e hiper-regulamentação convergem para um único fim: a vontade de extermínio; a nostalgia da guerra. Tal como em outras épocas e sistemas, a “Grelha” imposta pelos poderes dominantes é apenas um subterfúgio de uma outra vontade oculta: a vontade de extermínio. Todos são suspeitos e todos cumpridores, mas a história necessita, mais uma vez, de se alimentar das suas vítimas; a maior parte; a massa incógnita, para algum dia a celebrar num sítio ermo sob a impessoalidade do “Soldado Desconhecido”.