segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As Eleições Americanas



As eleições norte-americanas são um espectáculo divertido. Soa o toque da alvorada – começa a campanha do sistema bipartidário único. A sociedade americana unida divide-se num folclore democrata e republicano, Mas não são os democratas republicanos? Não são os republicanos democratas? A trama desenvolve-se pelos temas fraturantes: sistema de saúde pública e universal ou público-privado? E as pessoas mobilizam-se! Os prós e os contras, manifestações conservadoras, o futuro dos jovens americanos em jogo… As hostes demarcam-se: entertainers, desportistas, desenhos animados, atrizes porno… Republicanos ou Democratas!
As deliciosas investigações e revisionismos sobre o passado de cada candidato, as confrontações televisivas com os respectivos gráficos e análises a anunciar o vencedor do debate….
Surgem, finalmente, as discussões sobre política internacional como se o mundo fosse uma extensão periférica e animosa ao sagrado território americano, quem tem mais cicatrizes de guerra, etc, etc, etc…
Acaba-se a campanha, chega o dia das eleições e os candidatos, apoiados pelos respectivos lobbys, fazem uma última chamada de consciência aos eleitores.
Anuncia-se o vencedor e todos ficam satisfeitos, pois todos viram o seu candidato ser eleito.

domingo, 18 de novembro de 2012



Vindo de uma solene cerimónia de inauguração de um ciclo de cinema russo, a verdade acaba por chegar em formas sinuosas. À boa maneira russa, a cerimónia foi desastrada e cheia de peripécias: más traduções, fatos e vestidos grotescos que só a custo faziam entrever a singular beleza eslava – enfim, uma trapalhada.
Chegada a hora de conferenciar o embaixador plenipotenciário, devidamente acompanhado pelo subsecretário de estado da cultura (num país onde não existe Ministério da Cultura, este mais se assemelhava a um cangalheiro), passadas as várias banalidades que ambos, por protocolo, deveriam dizer, o embaixador sentencia: muitos serão os portugueses que hoje conhecem as grandes obras clássicas dos autores russos, mas poucos ou nenhuns os que conhecem o cinema contemporâneo russo. Vamos lá a ver, esse cinema contemporâneo russo…
Um filme, “Amo-te Moscovo”, uma sumula de pequenas novelas realizadas por finalistas do curso de cinema juntamente com autores consagrados, numa espécie de ode à cidade, com todos os seus defeitos e qualidades. O filme resume-se a uma imitação de um outro filme de há uns anitos atrás (Amo-te Paris), que por sua vez já será uma imitação de outra coisa, e seguro estou que continuar-se-ão a realizar novas declarações de amor no formato das imagens em movimento enquanto o secreto equilíbrio cósmico que suporta a vulgaridade aguentar tais expansões.
Apesar do filme ser bastante MAU (com toda a carga maniqueísta que este conceito pode ter), não é com certeza uma perda de tempo. Por entre os diversos lugares comuns, imagens arranjadas num digital piroso, mafiosos/oligarcas com ar amoroso, uma mensagem subliminar e poderosa vai passando: não sei se se vive melhor ou pior na Rússia de hoje (sim, digo Rússia, não Moscovo), mas parece-me ser um local reles e predador.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os Felizes



 É motivo de espanto que os infelizes exijam tudo sem hesitar aos seus antagonistas de sorte. Mas espanto de quê? Que exijam, sem remorsos, como se o mais anónimo dos felizes fosse ilegítimo detentor do quinhão de bonheur de todos os outros.

sábado, 6 de outubro de 2012

Afirma Pereira



“Afirma Pereira”, obra de António Tabucchi, escritor recentemente falecido com grandes ligações à cultura portuguesa.
Pereira é um velho jornalista português que vive na sociedade lisboeta dos anos 30, anos da ascensão do salazarismo, da afirmação dos diversos totalitarismos na Europa, da Guerra Civil Espanhola.
Este herói improvável é o responsável pela página cultural de um jornal da época o qual, embora não assumidamente, mantém relações privilegiadas com o regime.
Pereira é aquilo a que chamamos um “apolítico”, condição à qual a secção cultural de que está encarregue parece adequar-se perfeitamente. Assim permanece longe de qualquer suspeita, até que os problemas batem literalmente à sua porta. Vê-se compelido, antes de mais pelo seu carácter bondoso, a oferecer guarida a um jovem revolucionário com ligações à então beligerante República Espanhola. O jovem, inicialmente contactado por Pereira para se ocupar da página necrológica, por muito que tente, não consegue senão escrever sobre grandes revolucionários, para grande aflição do seu empregador.
Chegados a este ponto, a obra transporta-nos para um universo claramente organizado entre o “nós” e o “outros”, isto é, os que se mantém passivos perante o crescente acosso das autoridades e os que estão dispostos a abdicar de tudo, nomeadamente da sua segurança pessoal, para inverter a ordem das coisas. Dito isto, parece que estamos perante uma banalidade ou lugar-comum, e é bem possível que o seja, mas afigura-se-nos que na realidade que hoje vivemos urge dizer banalidades, ou pelo menos muitas das que até hoje mantiveram esse estatuto.
Porém, esse “nós” e esse “outros” vai muito para além do sentido militante que estes termos possam conter. Não são apenas as pessoas ligadas ao poder aqueles a que podemos chamar salazaristas, nem a o salazarismo se confunde apenas com a pessoa de Salazar, mas é toda uma visão do mundo e da vida que lhe vai implicada, quer pelas pessoas politicamente conscientes, quer por todos os outros que reproduzem no seu comportamento individual os ditames do poder instituído. O mesmo se passa com aqueles que mais ou menos voluntariamente se transformam em revolucionários, porque a suas ideias políticas não são apenas políticas (no sentido de responsabilidade pública), mas estão entranhadas no mais ínfimo pormenor das suas vidas.
Esta é a grandeza da obra que retrata (quiçá inconscientemente) o crescente antagonismo em que os seus intervenientes agem como uma espécie de marionetas nas mãos de uma força incógnita.
Por isto a obra parece reconhecer como óbvio o que hoje é tudo menos óbvio: não existe separação entre responsabilidade pública e individual, e os discursos encriptados dos agentes de poder instituído são, afinal, reveladores de verdadeiras escolhas políticas.
Assim, o Estado bicéfalo que herdamos desta democracia, onde se asseguram direitos, liberdades e garantias, mas se relegam as iniquidades do sistema para a esfera individual, mais não é do que a suprema falácia de um sistema empenhado em manter o status quo. A liberdade nunca é uma verdadeira liberdade se os chamados direitos económicos, sociais e culturais (que até as vozes mais insuspeitas consideram hipotecáveis em tempos de crise) forem continuamente desprezados. A “Empresa”, ao que parece, a nova célula fundamental da sociedade, é o feudo onde se permitem todos os atropelos aos direitos fundamentais em nome de uma espécie de soberania própria. Aqui se reconhece que a realidade dos sindicalizados restringe-se aos poucos sectores onde os trabalhadores têm poder negocial, e que, portanto, se encontram organizados.
Para finalizar, uma advertência: a inclusão de todos os aspectos da vida de um ser humano na esfera política comporta também perigos. Por isso, tal narrativa não se pode assemelhar a um saco sem fundo onde tudo se pode arrumar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

As Aventuras do Maltrapilho


Pegou o Pingolim, a custo, no processo de dívidas de X numa manhã em que estava particularmente ressacado e de mau-humor.
Com desdém, entregou ao Matraquilho. Doente e cansado, o Matraquilho carregou nas rédeas do sistema multiplicando a dívida por dois.
Disto foi informado o Salamida-Chefe, que quase não dando atenção ao esforço sobre-humano do Matraquilho, assinou tudo o que se lhe colocou debaixo do nariz enquanto examinava minuciosamente a foto da Miss Fevereiro 2012.
O Matraquilho, cumprindo todas as formalidades burocráticas, entregou ao Maltrapilho o trabalho sujo de limpar a massa a X.
O Maltrapilho, semi-esfomeado e com os sapatos gastos, montou a contragosto no veículo oficial e rumou a casa de X.
Depois de várias desventuras de viagem, a saber: pisadela de merda de cão, buzinadela injusta, buzinadela justa, travagem a fundo, gaja boa à nove horas – chegou ao bunker de X, providencialmente bem localizado num subúrbio bem frequentado de malandragem.
Foram vários os enganos, pois as casas, espanto dos espantos, não tinham números, e lá deu com algo que assemelhava a um casídeo humano.
Aproximou-se da porta, não viu ninguém, mas sentiu… sentiu o fedor nauseabundo que se escapava da porta entreaberta. Bateu uma duas três vezes e saiu gente, um homem, mal apessoado, meio bebido, mal dormido.
- É a minha filha, respondeu, filha de vinte e quatro anos, doente, manca, estremunhada, escanzelada, coxa, meio avariada.
Veio á porta, de pijama, mal amanhada. Não sabia, não via, não entendia. O patriarca replicou que tudo na casa era dele e nada dela, e saiu o Maltrapilho de mãos a abanar, fodido, mal dizendo o ofício. A viagem para casa não era longa. Por acaso, era mesmo ali ao lado.