terça-feira, 12 de julho de 2011

Quando Marx coloca a economia, como sendo o centro polarizador da sobrevivência, no cerne da vida social e histórica, na realidade não está a ver um determinado fenómeno apenas do ponto de vista económico, mas a abarcá-lo de diversos pontos de vista. Eis o monismo que o os positivistas do século XIX tanto menosprezaram.
Se as relações económicas se estruturam em relações de produção, onde uma das partes detém o capital e outra parte fornece o seu trabalho em troca de uma remuneração, estamos perante um jogo de forças (e bem assim num equilibrio social precário) que contamina a própria estrutura das relações sociais. Daí a crença de que o modelo económico acabará por arrastar o modelo social para o mesmo tipo de estruturação.
Não surpreende então que um modelo económico baseado no medo, na hierarquia e na irracionalidade, como aquele que o capitalismo favorece, acabará por levar por arrasto as relações sociais e o próprio comportamento individual. Acreditar-se-á em alguma natureza humana fundada na procura do lucro, depois de admitidos estes pressupostos? As pessoas acabarão, elas próprias, por se classificar por uma espécie de valia económica implícita, os seus desejos e ansiedades sujeitos a regras inflacionárias e deflacionárias, as suas qualidades vendidas no mercado a preço de saldo.
Na verdade, muito do que somos reflecte-se no trabalho enquanto estrutura de relacionação com a sociedade. Mas a uma sociedade que vê as relações e valia pessoais como um dado utilitário, não custa depreciar o desempregado como inútil, como um peso para si próprio e para o conjunto.
Perguntemo-nos também porque mesmo a estrutura mais desumana conseguirá sempre os seus adeptos, independetemente da época histórica e por mais absurdas que sejam as suas proposições? Porque se segue a força, que raramente (ou só provisoriamente) poderá ser a força dos fracos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Não raro, nessas noites menos felizes, encontramos esses seres amorfos que se assemelham um pouco por todo o lado. Não sabemos o que os sustenta, o que comem, se têm menstruações ou até se engravidam. Dá-se mesmo o caso de não sabermos se vivem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Novas formas, velhas ideias.

Em finais do século XIX, F.Nietzsche distinguiu dois momentos diversos na evolução das sociedades: os momentos de violência e os de corrupção. Os primeiros caracterizam-se por uma espécie de guerra de todos contra todos, portanto, eivados de violência física e insegurança; os segundos, caracterizam-se por um ambiente conspirativo em que, fundamentalmente, se acredita em tudo o que seja bem dito. Um pouco na esteira de Nietzsche, sou da opinião de que a violência nas sociedades é contínua, apenas se transmutando em formas mais sofisticadas.
É essa violência (real e simbólica), que o espectro político actualmente representa, acriticamente aliado com o status quo (esquerda incluída), fazendo cair por terra, cada vez mais despudoradamente o manto de legalidade que o mundo herdou do Pós-Segunda Guerra Mundial. A par desta, uma outra vaga não menos violenta nos invade: a banalidade. Porém, mais perversa, e com a qual todos parecem comungar de forma esquizofrénica, a banalidade/vulgaridade infiltra-se na sociedade até às entranhas, naquilo que se poderia chamar "um domínio a partir de dentro". Imprensa escrita e audiovisual de miserável qualidade, notícias tendenciosas, voluntarismo jornalístico, comentadores, opinion makers, todos, os verdadeiros príncipes da nova ordem. "Os tempos medíocres geram profetas vazios", disse Albert Camus em "A Queda". A opressão democrática, qual Babilónia de papel, nivela direitos e salários por baixo. Melhor, convence a opinião publica da absoluta necessidade deste estado de coisas. A selva mediática ocupa-se resto, como canta José Mário Branco, fazendo de cada homem uma ilha.
A onda de vulgaridade estende-se aos meios académicos, trabalhos e teses de copiosa pobreza, todos partilhando de uma ideia comum: não fazer juízos de valor; não criar doutrina, como se o mais perigoso e evitável de tudo fosse pensar por si próprio. Surge o sentimento inconsciente de se pertencer a uma época pós "qualquer coisa" mitigado pela tendência (esta, bem consciente) da falta de originalidade. A erosão das fronteiras entre a realidade e a ficção torna-se tão avassaladora que todos parecem capazes de afirmar e se sujeitar às maiores barbaridade.
Tudo o que se acreditou se dissipa, excepto aquilo que smpre ressurge em épocas corruptas: a punição, a ignorância e, como é óbvio, o domínio do mais forte sobre o mais fraco. Só isto nunca muda.

domingo, 24 de outubro de 2010

Sobre a continuidade e a ruptura

Em pleno século XIX, o filósofo alemão F. Hegel desenhou a base do seu sistema filosófico, ancorado numa nova
perspectiva extensível a todos os campos do saber - a evolução dialéctica, particularmente da história, uma nova luz sobre como
a cultura de passou a compreender a si própria. Em primeiro lugar, compreendeu-se que o progresso histórico não é linear,
mas acidentado, repleto de avanços e recuos, fracturas e perdas. Esvaneceu-se assim, ao mesmo tempo, um certo encanto romântico
que o acaso possa desempenhar, dissolvido numa visão determinista da história.
Mas mais perturbador do que pensar a história como um processo químico, que estamos eternamente condenados a incidir nos
erros passados, a compreender que a segurança do pós-Segunda Guerra Mundial nos trouxe é meramente ilusória, que um dia, enfim, tudo se acaba, é
pensar que talvez as coisas nunca mudem, que por mais que nos imponham o catecismo refinado das universidades e do progresso humano, estamos fadados para
uma espécie de deambulação imóvel. Será que o estado nazi rompeu de forma assim tão flagrante com a cultura alemã oitocentista: veneração da autoridade e da hierarquia, tendência territorial expansiva, ansiedade pela pureza da nação. Será que o estado bolchevique quebrou assim tão radicalmente com o passado czarista: ortodoxia iconoclasta, inquisitorialismo, separação entre estado e sociedade.
Pergunta final: será que o boom tecnológico e as suas consequências ao nível social não lançará a humanidade para uma nova era de obscurantismo e desumanização?

sábado, 22 de maio de 2010

Capitalismo III

Lloggi, o monstro amoroso precisa de amor.Já nao lhe bastava trucidar os seus filhos e servos, que agora surge-lhe na fronte vã a necessidade de ser amado. Lloggi descobriu que nada subsiste sem a a crença, e que o Império Romano caiu quando a ideia de Roma , enquanto elemnto civilizacional, morreu. Mas Lloggi habituou-se demasiado rápido à guerra.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Desenvolvimento por enclaves

R. Kapuscinski, grande jornalista polaco e escritor, talvez o maior o maior do século passado, conheceu bem a fundo aquilo que designamos por teceiro mundo. Países subdesenvolvidos, com défices infraestruturais e educacionais crónicos, patologias sociais endémicas, Estado falhados. Uma das notas que, na opinião deste autor, caracteriza um país do terceiro mundo é o chamado desenvolvimento por enclaves. Que quer isto dizer?
Na paisagem urbana de uma cidade de um país desenvolvido, deparamo-nos com uma certa ordem de coisas: a disposição das casas, as ruas e edifícios denotam uma certa homogeneidade. Encontram-se razoavelmente limpas, as estradas e todas as zonas da cidade conhecem padrões de qualidade muito semelhantes; a própria aparência dos seus habitantes sugere uma certa homogeneidade.
Já nos países subdesenvolvidos, as cidades apresentam graus de organizalção muito díspares, os bairros e condomínios de luxo intercalam com bairros de lata, às casas degradadas sucede um ou outro edifício imponente - imponentemente asséptico - ,a monumentalidade fria de uma banco, por exemplo, uma espécie de oasis asséptico entre a desolação.
Não será muito difícil identificar este último modelo com o nosso país. Os centros históricos das cidades portuguesas estão abandonados, empedernidos de casas (por vezes de grande valor arquitectónico) em total degradação, fruto de anos de abandono pelo poder autárquico, que sempre prefere alargar o perímetro urbano, autorizar novos loteamentos de legalidade duvidosa e cumprimento dos planos urbanísticos mais que duvidoso, condomínios fechados e outras sensaborías. Isto é o desenvolvimento por enclaves, triste realidade do nosso país nas últimas décadas.
Arriscar-me-ia a ir ainda mais além neste conceito. Diria que a tendência estende-se a toda a sociedade que não se desenvolve de forma harmónica. O fenómeno da globalização acentuou ainda mais esta tendência.
O mesmo Estado que diz estar no "Top" em informatização dos serviços, concede reformas de miséria aos aposentados, salários de fome aos trabalhadores, condições paupérrimas no acesso à justiça, iniquidades insuportáveis no sistema de educação.
Talvez um dia se cumpra o sonho profético de Saramago, e o nosso pequeno quadrado vagueie por esse oceano Atlântico fora até esbarrar com a América latina.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A monotonia do terror

Só quando o tempo serve a acção, exclusivamente a acção, se compreende como até o terror pode ser monótono.
O hábito, enfim, o último reduto dos seres vivos. A monotonia, necessidade de sobrevivência.