quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os Felizes



 É motivo de espanto que os infelizes exijam tudo sem hesitar aos seus antagonistas de sorte. Mas espanto de quê? Que exijam, sem remorsos, como se o mais anónimo dos felizes fosse ilegítimo detentor do quinhão de bonheur de todos os outros.

sábado, 6 de outubro de 2012

Afirma Pereira



“Afirma Pereira”, obra de António Tabucchi, escritor recentemente falecido com grandes ligações à cultura portuguesa.
Pereira é um velho jornalista português que vive na sociedade lisboeta dos anos 30, anos da ascensão do salazarismo, da afirmação dos diversos totalitarismos na Europa, da Guerra Civil Espanhola.
Este herói improvável é o responsável pela página cultural de um jornal da época o qual, embora não assumidamente, mantém relações privilegiadas com o regime.
Pereira é aquilo a que chamamos um “apolítico”, condição à qual a secção cultural de que está encarregue parece adequar-se perfeitamente. Assim permanece longe de qualquer suspeita, até que os problemas batem literalmente à sua porta. Vê-se compelido, antes de mais pelo seu carácter bondoso, a oferecer guarida a um jovem revolucionário com ligações à então beligerante República Espanhola. O jovem, inicialmente contactado por Pereira para se ocupar da página necrológica, por muito que tente, não consegue senão escrever sobre grandes revolucionários, para grande aflição do seu empregador.
Chegados a este ponto, a obra transporta-nos para um universo claramente organizado entre o “nós” e o “outros”, isto é, os que se mantém passivos perante o crescente acosso das autoridades e os que estão dispostos a abdicar de tudo, nomeadamente da sua segurança pessoal, para inverter a ordem das coisas. Dito isto, parece que estamos perante uma banalidade ou lugar-comum, e é bem possível que o seja, mas afigura-se-nos que na realidade que hoje vivemos urge dizer banalidades, ou pelo menos muitas das que até hoje mantiveram esse estatuto.
Porém, esse “nós” e esse “outros” vai muito para além do sentido militante que estes termos possam conter. Não são apenas as pessoas ligadas ao poder aqueles a que podemos chamar salazaristas, nem a o salazarismo se confunde apenas com a pessoa de Salazar, mas é toda uma visão do mundo e da vida que lhe vai implicada, quer pelas pessoas politicamente conscientes, quer por todos os outros que reproduzem no seu comportamento individual os ditames do poder instituído. O mesmo se passa com aqueles que mais ou menos voluntariamente se transformam em revolucionários, porque a suas ideias políticas não são apenas políticas (no sentido de responsabilidade pública), mas estão entranhadas no mais ínfimo pormenor das suas vidas.
Esta é a grandeza da obra que retrata (quiçá inconscientemente) o crescente antagonismo em que os seus intervenientes agem como uma espécie de marionetas nas mãos de uma força incógnita.
Por isto a obra parece reconhecer como óbvio o que hoje é tudo menos óbvio: não existe separação entre responsabilidade pública e individual, e os discursos encriptados dos agentes de poder instituído são, afinal, reveladores de verdadeiras escolhas políticas.
Assim, o Estado bicéfalo que herdamos desta democracia, onde se asseguram direitos, liberdades e garantias, mas se relegam as iniquidades do sistema para a esfera individual, mais não é do que a suprema falácia de um sistema empenhado em manter o status quo. A liberdade nunca é uma verdadeira liberdade se os chamados direitos económicos, sociais e culturais (que até as vozes mais insuspeitas consideram hipotecáveis em tempos de crise) forem continuamente desprezados. A “Empresa”, ao que parece, a nova célula fundamental da sociedade, é o feudo onde se permitem todos os atropelos aos direitos fundamentais em nome de uma espécie de soberania própria. Aqui se reconhece que a realidade dos sindicalizados restringe-se aos poucos sectores onde os trabalhadores têm poder negocial, e que, portanto, se encontram organizados.
Para finalizar, uma advertência: a inclusão de todos os aspectos da vida de um ser humano na esfera política comporta também perigos. Por isso, tal narrativa não se pode assemelhar a um saco sem fundo onde tudo se pode arrumar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

As Aventuras do Maltrapilho


Pegou o Pingolim, a custo, no processo de dívidas de X numa manhã em que estava particularmente ressacado e de mau-humor.
Com desdém, entregou ao Matraquilho. Doente e cansado, o Matraquilho carregou nas rédeas do sistema multiplicando a dívida por dois.
Disto foi informado o Salamida-Chefe, que quase não dando atenção ao esforço sobre-humano do Matraquilho, assinou tudo o que se lhe colocou debaixo do nariz enquanto examinava minuciosamente a foto da Miss Fevereiro 2012.
O Matraquilho, cumprindo todas as formalidades burocráticas, entregou ao Maltrapilho o trabalho sujo de limpar a massa a X.
O Maltrapilho, semi-esfomeado e com os sapatos gastos, montou a contragosto no veículo oficial e rumou a casa de X.
Depois de várias desventuras de viagem, a saber: pisadela de merda de cão, buzinadela injusta, buzinadela justa, travagem a fundo, gaja boa à nove horas – chegou ao bunker de X, providencialmente bem localizado num subúrbio bem frequentado de malandragem.
Foram vários os enganos, pois as casas, espanto dos espantos, não tinham números, e lá deu com algo que assemelhava a um casídeo humano.
Aproximou-se da porta, não viu ninguém, mas sentiu… sentiu o fedor nauseabundo que se escapava da porta entreaberta. Bateu uma duas três vezes e saiu gente, um homem, mal apessoado, meio bebido, mal dormido.
- É a minha filha, respondeu, filha de vinte e quatro anos, doente, manca, estremunhada, escanzelada, coxa, meio avariada.
Veio á porta, de pijama, mal amanhada. Não sabia, não via, não entendia. O patriarca replicou que tudo na casa era dele e nada dela, e saiu o Maltrapilho de mãos a abanar, fodido, mal dizendo o ofício. A viagem para casa não era longa. Por acaso, era mesmo ali ao lado.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Obscurantismo Esclarecido


Em1974, Roberto Rossellini, cineasta da geração de ouro do cinema italiano, realiza uma série para a televisão italiana de seu nome «Cartesius». Os episódios decorrem de forma tranquila e sobria pela vida do famoso filósofo francês seiscentista num registo de realização completamente desprovido dessa espectacularidade que os cânones hollywoodescos consagraram em verdade absoluta.
Tal relato desapaixonado (que em certas passagens se limita a reproduzir textualmente trechos das obras mais famosas do autor de «O Discurso do Método» e «Princípios da Filosofia»), tem tanto de didáctico como de revolucionário, numa série realizada em “contra-corrente” com a tendência das emissões televisivas italianas do principiar de uma outra revolução: a revolução cultural.
Como pano de fundo da série, temos uma época em que o ensino escolástico, um pouco por toda a Europa, continuava vivo e de boa saúde, propagando a sua abordagem jesuítica do ensino, pseudocientífica, promíscua em dados empíricos e preconceitos ideológicos.
A esta miscelânea académica conservadora do status quo, Descartes contrapõe o método: a dúvida como momento essencial na busca de um conhecimento assente em princípios sólidos, de bases dedutivas ancoradas na “sicurezza” dos números.
 Este é o início de uma perspectiva civilizacional que culmina no optimismo positivista, e que ainda hoje povoa o imaginário do mundo ocidental: a fé na ciência como chave do progresso e da felicidade humanas.
Valores como os que estão no cerne da visão de Descartes são de uma perene validade, mas permitamo-nos também nós a uma dúvida metódica invertendo os dados da história: e se um novo obscurantismo surgisse precisamente ancorado nos elementos que Descartes elegeu como a pureza máxima, os números. E se, de facto, o excesso de luz equivalesse às trevas?
A história assim contada soa estranha, e talvez mesmo intelectualmente desonesta, mas algo poderemos aproveitar de semelhante raciocínio.
Ao longo dos tempos, e desde que existe algo a que podemos chamar direita política, os seus cavalos de batalha e paladinos foram mudando ao longo dos tempos. Os capatazes e sicários de hoje são, não obstante, os mesmos de ontem, independentemente da orientação ideológica do sistema que servem. É o fenómeno do poder que perpassa a orgânica própria dos sistemas. As linhas de suporte ideológico poderão ser as mais diversas: investidura divina, realismo político, teoria do mal menor, cientismo, missão histórica da classe.
Assim, hoje, o discurso do poder fundamenta-se num determinismo matemático de uma das diversas perspectivas da economia, num cinismo ideológico a que alguns chamam “pós-ideológico”, embora temamos que aquilo que encobre seja bastante antigo e conhecido de todos: o domínio, a escravatura.
Esta espraia-se numa explosão de novos processos de doutrinação pelo poder que encontra diversas ramificações na sociedade:
 - Os meios académicos que repetem em uníssono os discursos oficiais, tomando-os como verdades absolutas e científicas. Posições de princípio que não são nem inocentes nem científicas, porque visam unicamente legitimar interesses bem concretos;
 - O domínio da comunicação social pela selecção adversa dos factos noticiosos, comentadores politicamente comprometidos e papagaios do regime, debates circunscritos onde se encontram os sempre desejáveis consensos;
 - O domínio pelo lazer: programas estupidificantes que emanam da praxis neoliberal – competitividade, eliminação do mais fraco, alienação, brutalidade;
 Quilómetros e quilómetros de conversa fiada em torno de elementos quantificáveis - análises estatísticas, gráficos – um vazio imenso de onde brilha ao fundo a vontade de domínio qual luz perene e invencível, alheia à incerteza que um número pode conter, à incomensurabilidade da existência.
Perante isto, a possibilidade de mudança deve-nos conduzir a um processo de arqueologia linguística. Uma revolução deve principiar pelas palavras e privilegiar a discussão das questões de fundo – os pressupostos.
A nova esquerda deverá recuperar essa velha “tradição” dos que preferiram ser livres, mesmo quando os ventos sopravam em sentido contrário.

domingo, 6 de maio de 2012

Após a nova Pré-História

À medida que a crise económica segue o seu caminho aliada à política de austeridade, um número cada vez maior de pessoas, que durante a última década construiu um expectativas de vida proporcionadas por um ambiente desafogado, ruma hoje pelo dia-a-dia com apreensão crescente. A aparente apatia perante esta guerra contra a sociedade levada a cabo pelas forças dominantes, faz desconfiar que milhares de lares portugueses vivem hoje uma paz instável, cheia de angústias e incertezas.


Ao desemprego crescente e à precariedade dos vínculos laborais, acresce a anuência do poder político que quando não intervém activamente no sentido de agravar as condições de trabalho, disfarça os novos modelos de exploração sob um manto de hipocrisia.

Habituámo-nos a conviver com a esquizofrenia de um modelo social e económico dividido entre uma liberdade formal e uma realidade onde uma espécie de atavismo feudal transforma o dinheiro e a alta finança em novos referenciais. Como não poderia deixar de ser, o modelo económico contagia a sociedade, que reproduz os seus preceitos nos comportamentos e atitudes ao ponto de, nesta sociedade pós-industrial, se conjugar o pior de dois mundos: os velhos fantasmas de uma sociedade onde persistem graves clivagens sociais e onde a luta de classes foi amiúde desvigorada pela acção paternalista e conciliadora da Igreja, e a alta sofisticação das formas de violência. Mas a luta pela liberdade deve ser permanentemente reinventada, assim como permanentemente se reinventam as forças dominantes. Muitos mostrariam perplexidade perante a excessiva porosidade de certos conceitos: «Não é um liberal alguém de defende a liberdade?»; «Porque passam as revoluções e tudo volta ao mesmo?», acrescentariam. O poder assenta numa permanente restruturação. Por isso o liberalismo herdeiro da Revolução Francesa conjuga as forças divergentes de uma burguesia sedenta de poder e certos sonhos libertários de românticos contra o poder estabelecido e economicamente esclerosante do feudalismo. A transformação da lei num instrumento da revolução contra a arbitrariedade foi convertida em apanágio de um poder burguês que alterna os altos cargos de governo com posições destacadas em empresas.

Deverá ser o retomar do poder pelo povo e a reabilitação da capacidade de exercício da violência a recuperar os valores eternos da Revolução Francesa. As leis e instituições são letra morta se estas não se alicerçarem num equilíbrio de forças. O verdadeiro legitimante da exploração capitalista é a incapacidade negocial do trabalhador, preso e única presa de um poder político que mais não é do que a boca de um novo fascismo representado pelas empresas.

Este novo monstro, quando ainda embrionário, foi identificado por Pasolini em meados da década de setenta. No último dos seus filmes: “Salò ou os cento e vinte das de Sodoma”, quatro poderosos na cidade de Salò, último reduto fascista na Itália de Mussolini, rapta um conjunto de jovens portadores de certas qualidades físicas. Isolados numa mansão, os fascistas praticam todo o tipo de sevícias: abusos sexuais, agressões, fome, ingestão de dejectos humanos e, finalmente, aquilo que os próprios designaram como o ”derradeiro sacrifício”: a tortura e morte dos jovens. Terá sido também o derradeiro sacrifício do autor, assassinado antes da estreia do filme.

O fascismo retratado por Pasolini em Salò não é apenas um fascismo enquanto experiência histórica localizada entre a década de 20 e a década de 40 do século passado. É sobretudo um fascismo do consumismo e da revolução cultural que se lhe seguiu. Esta revolução, que na opinião do mesmo autor penetrou as entranhas da sociedade e alguns grupos que haviam passado incólumes durante toda a sua história. Esse fascismo do futuro, uma nova pré-história onde os corpos são um valor mercantil, encarna o potencial ilimitado de exploração.

Quando o mesmo Pasolini considera que os filhos pagam pelos erros dos pais, não nos estranha que sejamos nós e as futuras gerações a nova horda preparada para o sacrifício na economia dos serviços, onde a mais-valia retirada da prestação laboral é um verdadeiro esforço de subjectivação perdido na incomensurabilidade do ganho.

Este: o novo antropos fundado no referencial do marketing, muito mais do que a forma de comercializar um produto, uma forma de comercializar absolutamente tudo, inclusive a própria dignidade humana. A parafernália de conceitos incutidos pela cultura empresarial, “espírito de liderança”, “orientação para resultados”, “empreendorismo”, “gestão por objectivos” - um missal repetido até à exaustão pelo poder instituído, forças governamentais, meios de comunicação social, para pobres espíritos deixados órfãos pela morte das grandes ideologias. São a máscara perfeita de um regime brutal que procura encobrir relações de trabalho desastrosas.

Esta é a consciência histórica que deve enformar o renascimento dos movimentos sociais, que cada vez mais incorrem no risco de serem apelidados de movimentos desesperados de náufragos de uma determinada narrativa e estilos de vida que, por circunstâncias diversas, deixaram de figurar entre a possibilidade reais num novo mundo de possibilidades simbólicas. Agarrar esse ideal de vida como instrumento de luta seria como carregar um peso morto.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Aquiles e o rosto de Heitor

Diz-se que o outrora poderoso Aquiles não morreu ferido no calcanhar. Essa seria uma necessidade narrativa que Homero concedera aos fortes e belos: morrer forte e belo. O misterioso apócrifo que o refere, narra pesadamente o pior castigo que os Deuses dão aos prepotentes. A morte por velhice. A morte reservada aos que deverão assistir à lenta decadência do seu corpo e faculdades mentais. As novidades de horror que as vísceras nos reservam. A dor que nunca em idade sana imaginámos existir.
Definhou velho, o pobre Aquiles.
Refere-se também o dia em que Aquiles trucidou Heitor. Como furioso o esventrou em frente do seu amado pai, como o prendeu à sua troica de esbeltos cavalos e o arrastou pelas praias empoeiradas e pedregosas de Tróia.
Num acto final desesperado, teria mesmo desfeito o rosto de Heitor com uma pedra afiada. Dir-lhe-ia uma Musa suspeita, que quanto mais delapidava o odiado rosto, mais o seu se lhe desenhava no inerte cadáver.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

As vantagens de ser fatalista e pretendente a escritor

Antes de começar, gostava de vos dizer que este episódio é, no essencial, verídico, estando apenas um pouco floreado com as exéquias que situação exige.
Há uns tempos atrás, no trabalho, uma superior hierárquica (por sinal bem jeitosa), dirigiu-me as seguintes palavras:
- Ó Feliciano! Estás muito ocupado? Não? Olha, arruma-me aqui estes processos. Não me apetece fazê-lo agora.
Ouvida esta ordem, o meu cérebro pensou: «e um minete? Não vai?», ao mesmo tempo que a minha boca dizia:
- Claro. Para já?
- Não… Quando tiveres tempo.
Agora perguntem: como é que nesta situação degradante da condição humana mostra-se útil ser fatalista e pretendente a escritor?
Eu respondo: Ajuda sim senhor! Quando a senhora se dirigiu a mim, pensei: esta senhora não existe e todos os que aqui estão não existem, e talvez eu seja a única realidade pensante no meio deste bando de símios. São apenas sombras, joguetes inconscientes nas mãos do destino. O que a sua boca profere mais não é do que um a voz inconsciente comandada por uma força incógnita, desconhecida, que ao longo da história dos homens vai ditando as suas regras… inexoráveis para toda esta construção frágil e precária a que chamamos civilização. Se esta voz agora me rebaixa ao ponto zero da dignidade, e pretende mesmo aniquilar tudo aquilo que tenho de precioso (diga-se, a memória), é porque é politicamente útil que o faça. No fundo, ela é tão culpada como eu.
Depois de tudo isto me ter ocorrido numa fracção de segundo, senti um conforto terrível e uma certeza inabalável que um dia, talvez quando os bons Deuses do Olimpo acordarem do seu sono, algo semelhante seja recordado por alguém.